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quinta-feira, 12 de abril de 2012

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15. Princesa





Enquanto aguardávamos à mesa o pedido que nunca chegava, uma indiana, vassoura sem cabo à mão, varria o restaurante, rente aos nossos pés, curvada ao chão - um movimento sinuoso para lá, outro para cá, um para lá, outro para cá - uma onda mansa e silenciosa. Detive-me nela, como viera a mim, começando por baixo, o mais próximo do chão: sandália de borracha gasta, unhas pintadas de rosa, anéis de prata em cada um dos dedos do pé, tornozeleira rendada com pequeninos pingentes. E fui subindo: sári preto, estampas geométricas em laranja e branco, pulseiras douradas nos braços, brinco no nariz e nas orelhas; a marca rubra na testa, no sulco do cabelo; a cabeça envolta pelo sári negro, cor de seus olhos. Interrompi com cuidado a ondulação varredoura no chão; num gesto de mão, pedi-lhe em silêncio que me a deixasse fotografar. Levantou-se, sem vacilar, sem palavra dizer, volteou o sári ao redor do corpo, ajustando-o com fina discrição. Ergueu a cabeça, fitou-me reto: olhos valentes, sorriso em polpa, porte elegante, natural, nobre. Aguardou serena, íntima da eternidade. 

Ali, diante de mim, nem varredora, nem mulher: uma princesa, isso sim. De verdade. Não dessas intituladas, herdeiras, fingidas, molengas, soberbas, aureoladas, mas que enfrentam o duro, o seco, o áspero, o sujo, o pó, e que, por uma graça misteriosa, uma leveza absolutamente inexplicável, de tão fulgurantes, parecem ter pacto com as estrelas. 

Feita a foto, curvou-se ao chão, voltou a varrer. Sua alteza, soberana majestade.

Na Índia é assim: as princesas não vêm do alto, elevam-se do chão.

E a ele retornam, porquanto este, é seu reino: princesas reinam no chão da Índia.