quinta-feira, 22 de março de 2012

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Lições à mesa indiana (10)


Lição 10:

O álcool – sharab em híndi - é liberado na Índia, com exceção do estado de Gujarat, a oeste, que faz fronteira com o Paquistão. No hinduísmo, contrariamente ao islamismo, não há nenhuma restrição ao sharab, apenas em cidades sagradas como Rishikesh, Haridwar e Pushkar, onde é proibido. Normalmente, está presente nas celebrações, tais como casamentos e aniversários, e também durante importantes festivais hindus: o Diwali, festival das luzes, entre outubro e novembro, cujas milhares de lamparinas acesas – as diyas, que dão nome ao festival - simbolizam a vitória do bem sobre o mal em cada ser humano; e especialmente o Holi, festival das cores, que celebra em março, com muita bebida, comida e música, a chegada da primavera - adultos e crianças atirando e aplicando uns nos outros pós multicoloridos chamados gulal. Indiano é muito festeiro: uma bebericadinha não pode ficar de fora - beber é uma forma de celebrar o fervor, assim como brincar e dançar. Todavia, de acordo com o calendário hindu, há períodos de jejum importantes durante os quais a abstinência alcoólica é observada, sobretudo pelos mais ortodoxos.

Curiosamente, não se veem botecos nem pessoas vendendo ou bebendo álcool em lugares públicos: muito raramente vemos um alegrinho trocando as pernas. Em muitos restaurantes e hotéis, álcool não é oferecido. Em parte talvez isso explique - se é que tem explicação – porque no trânsito caótico da Índia, a gente não vê batida, briga, discussão, insulto, nem mesmo palavrão. Paradoxo dos mais assombrosos da Índia: a desordem civilizada. Não há sociologia que dê conta. O baixo teor etílico pode ajudar. Quando indagados a esse respeito, os indianos responderam-nos que na Índia só se costuma beber à noite, em casa, antes do jantar, de preferência uísque - com soda ou água gelada - e rum. Homens apenas: mulher beber álcool não é nada bem visto, ela tem tarefas demais para cumprir em casa. Além das de fora, é claro. 

E os mais jovens, adolescentes? Um rapaz respondeu-nos que, em geral, eles bebem de tudo, mas que os pais, mesmo os que bebem, desaprovam que os filhos o façam:

- They say it’s bad to drink … So even the papas who drink, don't like their sons to drink …

É aquela velha estória: faça o que eu digo, não o que eu faço. Existe aqui também. Coisa mais corriqueira e banal. Mas, curiosa, foi essa sua revelação : 

- I drink almost everything. But the most interesting thing, My parents don't know it… I have never told them... I have never drunk with my Dad or any of the uncles, not even beer…

Interessante mesmo, interessantíssimo até: tais palavras parecem sugerir que, na Índia, a autoridade paterna está longe de conhecer um declínio. Pelo menos dentro de casa, à vista dos pais. De se fazer inveja a muitos ocidentais nostálgicos.

Vinho, na Índia, não é muito comum e relativamente difícil de encontrar: é preciso licença para vender. Evidentemente, às finas mesas de Delhi e Mumbai, difícil é escolher dentre os melhores do mundo. As metrópoles da Índia tem de tudo: do lixo ao luxo. Luxo mesmo. Nashik, no estado de Maharasthra, e Nandi Hills, no de Karnataka, são as duas grandes regiões vinícolas do país. Nem o vinho escapa da marca do divino: além de Nandi, touro sagrado de Shiva, que dá nome à montanha, o vinho Sula, fabricado em Nashik, traz no rótulo o deus Surya – que significa “sol” – uma dos aspectos de Shiva e Vishnu. 

A cerveja indiana é ótima: a Kingfisher Premium, cuja logomarca – um lindo pássaro de asas azuis – é onipresente na Índia, sobrepujando o leão de sua rival australiana Lion. Pensamos que fosse um beija-flor: martim-pescador é seu nome. Só na Índia para um pássaro bater um leão. 

E para os deuses não torcerem a cara para o álcool.


Nandi Hills (Karnataka), colina vinícola
Vinho fabricado em Nashik (Maharasthra)
Logomarca de cerveja com o martim-pescador: onipresente

2 comentários:

Rohit disse...

Ils disent, "Maldito Alcool", mais ce n'est pas correct! tout dans la modération est très bien. J'aime vraiment ton texte que décrit vivante du goût des Indiens pour l'alcool. La ivresse que tu as créé avec votre texte mérite baisers .. la belle description des régions viticoles de l'Inde, en corrélation avec les dieux et les thèmes mystiques va sûrement attirer l'attention de tout le monde sur le blog .. Après avoir lu, je voudrais un verre de shiraz, .. Vraiment, avec le texte très beau, tu as capturé tout ... J'espère que ce n'est pas le dernier ... Simply super et formidable!!!

Bisou et Abraços
Rohit

Anônimo disse...

Está super interessante, com comentários mundializados!
Alice