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domingo, 5 de fevereiro de 2012

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8. Trem para Colombo





A saída do templo, lavamos os pés e nos misturamos à multidão nas ruas: moças de longas tranças e sombrinha, monges budistas carecas de sombrinha também, rapazes de mãos dadas conversando sem pressa no asfalto, alheios ao nervosismo dos tuc-tucs e ao ronco dos velhos ônibus.  

No mercado municipal, frutas e legumes faziam, numa fartura de encher os olhos e dar água na boca, outro festival de cores: do interior do templo à luz do dia, tudo é cor no Sri Lanka. No ziguezaguear das bancas, uma parada aqui, uma provinha ali: rambutãs vermelhíssimas transbordando dos cestos, uvas jorrando em gordos cachos, melancias em tamanho reduzido, mexericas azedas, carambolas rolando desassossegadas por cima das azeitonas.

Logo adiante, bazares vendendo de tudo – utilidades domésticas, produtos religiosos, tecidos, saris, henas, bolsas, sandálias, colares, traquitandas mil -, na parte superior, um mercado de roupa a céu aberto e montanhas de pano sendo mexidas e remexidas sob imensas tendas. Seja nas ruas, nos bazares ou nas tendas, cingalês é bom de prosa: por onde passamos, tudo é motivo para puxar conversa, começando pelas nossas correntes – nice style, nice chain, it's gold? - e encadeando a seguir: wich country? First time in Sri Lanka? Do you like? Where are you going?

Direto ao Queen's Hotel. Almoço cingalês ligeiro, lassi com banana, um mergulho na piscina, tuc-tuc de volta à estação. Uma fila longa diante do único guichê - será que vai ter lugar para todo mundo? - momento de suspense. Pedi licença, indaguei o atendente, um balanço de cabeça pareceu dizer sim. O jeito foi esperar e entregar para Ganesha: minutos depois, bilhete de terceira a mão, um velhinho curvado à entrada da plataforma obliterou nosso destino para Colombo.

Difícil foi encontrar um assento. Os vagões de terceira classe já estavam tão cheios que não cabiam nem a ideia de entrar neles. Resolvemos tentar a sorte de um lugar, indo em direção aos de segunda, ainda bem vazios: quem sabe alguém perde o trem? Nunca se sabe. Os passageiros foram pingando e, lentamente, os lugares foram sendo ocupados, sob ventiladores de teto que giravam mais do que ventilavam. Já passava da hora, alguns assentos ainda vagos. Sorte nossa? Que nada. Nosso plano teria dado certo se o trem saísse na hora: a lógica do “nunca se sabe” parece só funcionar na base da pontualidade britânica. Em Kandy, nosso trem parece ter esperado todo mundo chegar para só então dar o apito. Para alegria dos ambulantes que viajam com suas carrocinhas sobre a plataforma ao longo do trem, abastecendo a longa espera da partida, com biscoitos e refrigerantes passados pela janela.

Finalmente o apito, nós dois de pé no compartimento entre vagões, à saída do banheiro. Como aqui as portas dos trens permanecem abertas durante a viagem, os degraus servem também de assento, tão ou mais disputados do que as janelas: o desconforto é recompensado pelo horizonte que proporcionam. A paisagem é das mais lindas: o trem vai descendo a serra num traçado sinuoso no coração da mata verde, descortinando entre bananais e coqueirais, vales profundos cobertos de floresta. Nas curvas, um colar de cabeças de fora, braços, troncos, pernas, às vezes, o corpo inteiro, dà a ver que a noção de perigo é mesmo muito relativa, eu diria até, cultural. No cruzamento de dois trens, acenos, brincadeiras, risadas de ambas a direções. Como o percurso é muito montanhoso, uma sucessão de tuneis fecha a cortina ao verde num só golpe para, segundos de breu depois, abri-la novamente, numa alternância de sombra e luz que faz nascer aos olhos um verde novo e mais intenso a cada vez.

Na planície, arrozais inundados d'água, brotando eretos e viçosos, refletiam garças brancas em revoada. Na solidão da mata, uma casa coberta com folhas de palmeira aqui, outra bem distante ali, os deuses sempre por perto: todo casebre tem direito a um templo enfeitado com guirlandas de flor amarela sob a copa das arvores. Na roça familiar, casais acocorados cavucam a terra com as mãos, ele de sarongue, ela de sari, ambos descalços. Quase não vimos maquinário: o trabalho da terra se dà no contato bruto e direto de pés e mãos. No meio do nada, uma mulher equilibrando um pote de barro sobre a cabeça, num caminhar sereno, colorido, solitário, sabe Deus quão longe. Aonde vai? Não sei. Só uma certeza: nunca vi elegância maior.

Mais adiante, um templo budista e sua arquitetura tradicional arredondada em forma de sino - a stupa - com arremate alongado, em geral em metal dourado, na ponta. As stupas – nascidas na Índia - eram originalmente relicários onde se guardavam as cinzas dos mestres budistas, incluindo Buda. No Sri Lanka vemos stupas por toda a parte, sempre com uma imagem de Buda. No meio da mata verde, a visão desse templo causou-me forte impressão: uma enorme estátua de Buda, seis metros ou mais, de pé, ao lado de uma frondosa figueira, frente a uma centena de estátuas menores, nas cores laranja e amarelo, tamanho maior do que o natural, representando mestres budistas - ou quem sabe, o próprio Buda - em fila indiana, equidistantes uns dos outros, parados, em posição de sentido. De longe, na velocidade do trem, por um segundo, tive a visão de um pelotão militar, o qual fez-me lembrar dos milenares soldados chineses em terracota. Buda, de certo, há também de ter seu exército. À medida que tudo isso ia passando lá fora, no vagão ao lado, moças cingalesas de tranças compridas, algumas bem meninas, cantavam e dançavam batendo palmas, numa alegria tão verde e cheia de viço que parecia ser o próprio canto da mata.

Chegamos à estação Colombo Fort ao cair da tarde. Um tuc-tuc completou a volta à casa, esplanada de Gale, céu rosado pelo Sol poente no mar. Depois de um banho, deitei-me um pouco, devo ter caído no sono. Acordei na primeira vez com o alto-falante da mesquita; na segunda, com Marcio baixinho ao meu ouvido dizendo que nosso anfitrião marcara de jantarmos num restaurante japonês com uma colega - de mãe japonesa e pai indiano – a fim de nos dar dicas sobre a Índia. Foi só descer o elevador: o restaurante encontrava-se ao lado. E a Índia também. A moça, um pouco atrasada, não tardou a chegar: bonita, desenvolta, sensual, entrou de sola no assunto, num inglês fluente com sonoridade de japonês:

- I love India, you know, it's my country... but sometimes, I love India and I hate India... I really do! I don't know, some India I love, some India I hate... But I love India, I really do, it's lovely! – disse-nos às gargalhadas numa formulação aparentemente leviana mas cuja estrutura pareceu traduzir a própria essência da Índia: o paradoxo. O bate-papo prosseguiu, entre sushis e saquês, estórias engraçadas, dicas interessantes, e uma frase que levamos conosco na bagagem:

- India is not dangerous, it's intense. But you should be careful, it can be pushing, very pushing.

Kandy e o trem ficaram para trás. Índia à vista, intense e pushing.


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

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7. O espetáculo dos sentidos





Fomos a pé até o templo hindu que fica atrás da estação de trem e cujo gopura – portal de entrada piramidal coberto com figuras de deuses – avistamos de longe, multicolorido.

- Eu li que essas figuras – disse Marcio - são feitas em argila e depois pintadas. A cada doze anos, elas são restauradas, repintadas e reconsagradas. No templo de Madurai, nossa primeira cidade no sul da Índia, há doze gopuras, alguns têm mais de cinquenta metros – concluiu.

Eu, que já estava impressionado com a vivacidade e o colorido daquele gopura, de apenas alguns metros – deuses dançando, sorrindo, fazendo careta, uns sentados, outros montados em pavões - fiquei imaginando o que seriam doze, medindo dez vezes mais. Me dei conta, naquele momento, de algo que eu já pressentia e que, então, apareceu-me de maneira evidente: mais do que um pais com características próprias, o Sri Lanka estava sendo para nós uma iniciação à Índia. Diversidade de culturas, línguas, religiões, cores, aromas, sons - tudo em escala infinitamente menor.

Tiramos o sapato, ritual obrigatório em todos os templos. Cocos abertos secavam ao sol, no pátio de entrada: depois da oferenda, são reaproveitados na fabricação de óleo utilizado para acender chamas, exalando um perfume suave dentro dos templos, misturado ao cheiro de incenso. Passamos pelo pórtico junto aos fiéis que tocam o chão e as paredes com as mãos, batem o sino, pedindo licença: o ritual religioso – o puja – começaria dali poucos minutos.

O puja pode ser feito em qualquer lugar, em publico ou em privado, e nos templos, geralmente é realizado de manhã bem cedo, ao meio-dia, e ao cair da tarde. Oferendas são preparadas em bandejas forradas com folhas de bananeira repletas de frutas tropicais, chamas acesas dentro de cocos. A luz natural filtrada por grandes janelas dispostas no alto, em torno do corpo central: uma atmosfera leve e diáfana, num jogo de diagonais solares em meio à fumaça dos defumadores. No altar central, Shiva, o deus destruidor ou transformador, que forma juntamente com Brahma, o deus criador, e Vishnu, o deus preservador, a trindade hindu. Nandi, o touro branco sagrado, símbolo da força física e da violência (também da energia sexual), escudeiro fiel de Shiva, guarda a entrada do templo, sempre voltado para o altar principal: montar o touro branco significa dominar a violência e controlar sua própria força. Ao redor do altar central, uma sucessão de altares menores - cada um dedicado a uma deidade, creio eu - cobertos por figuras de deuses, em cores fortes e vibrantes, acompanhados de graciosos elefantinhos. Cadeiras e bancos, no interior do templo, não há, passagem ou corredor tampouco: o chão, de tudo e de todos, é o lugar - nele se senta, se ajoelha, reza-se, ri-se, conversa-se, deita-se também. Homens jogam-se de bruços, rosto colado no chão, braços esticados à frente, em reverência a Shiva. Cada um escolhe a modalidade corporal para interagir com o divino: o bebê posto pela mãe sobre o chão, já vai experimentando a sua. Lado a lado, numa galeria, esculpidos e pintados em tamanho natural, um cavalinho, um leão, um touro branco e um pavão, numa estética lúdica e fabulosa; noutro canto, um altar sobre quatro rodas, em madeira entalhada, base dourada, colunas e teto coloridos feito um carro alegórico em miniatura: nunca pensei ver um templo religioso tão próximo de um barracão de escola de samba.

Batidas de tambor, bimbalhar de sinos, toque de corneta, hora de acordar os deuses. Começa o puja: sacerdotes - panos enrolados à cintura, colares, sem camisa - dão inicio ao ritual, batem o sino, lavam a divindade, ungem-na com óleos e pasta de sândalo, cobrem-na com panos e guirlandas. Em seguida, recebem as oferendas - o prasad, alimento consagrado (frutas, comidas), quase sempre algumas rúpias - levam até o altar, depois retornam apresentando a chama sagrada as fiéis, que estendem as mãos sobre ela para receber o darshana, a bênção divina. É o clímax do puja: a divindade, vestida e ornamentada, está “presente” junto aos fiéis. Uma parte das oferendas lhes é devolvida - esse gesto talvez seja uma metáfora hindu do preceito cristão: é dando que se recebe. O puja dura poucos minutos e termina sem grande formalidade. Quando tambor e sinos calam, sacerdotes sentam-se à vontade encostados nas pilastras, batem papo, brincam; fiéis dão voltas em torno do altar de Shiva, tocam Nandi, Ganesha e a si próprios, curvam-se no chão, falam com os deuses em voz alta, rituais prosseguem nos altares menores ao redor.

Nos templos hindus, a celebração não tem fim, o fervor sempre se renova, a devoção se personaliza, numa miríade contínua de cores, perfumes, gestos. A impressão que se tem, é que os deuses são ao mesmo tempo cruéis e afáveis, temíveis e sedutores, poderosos e brincalhões: eles gostam de ver, sentir, cheirar, provar, ouvir, tocar. E preciso adorá-los não somente com a alma, mas sobretudo com o corpo: a celebração hindu é um espetáculo de sentidos que transborda toda e qualquer hierarquia, cada um sabe como abordar e encantar um deus que é todo seu.




quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

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6. Da hora do breakfast aos relógios da estação


Uma sala ampla, robusta - arcos e janelas altas, cortinas franzidas, ventiladores de teto, relógio de pêndulo na parede, móveis escuros, toalhas brancas, pequenos arranjos de antúrios sobre as mesas - serviu o café da manhã. Iguarias cingalesas, coloridas e apimentadas, além de banana, mamão e o delicioso lassi, mesclavam-se ao breakfast tipicamente inglês: ovos mexidos com bacon, omelete, lascas de batata cozida, tomates grelhados, torradas, geleias, bolos diversos, café e, naturalmente, black tea. A granola - trazida conosco na bagagem como provisão de sobrevivência -, foi adicionada ao banquete. Pela vidraça, árvores frondosas e o reflexo das montanhas no espelho d'água de Kandy, àquela hora matinal, já emoldurado por um formigueiro agitado e barulhento.

Saímos às ruas: um monge, albino, túnica vermelha, leque de palha, caminhando descalço - o primeiro de muitos que veríamos depois, alguns de sandália. Na estreita calçada, frente à uma joalheria, um rapaz polia ouro e prata, a postos em seu banquinho de madeira: soluções dispostas em cumbucas de plástico cada uma de uma cor, fios elétricos alimentados por pilhas, balde d'água, alicate, escova, flanelinhas.

- Vamos tentar? - perguntamo-nos, confiando-lhe nossas alianças. O rapaz examinou-as com perícia, dando incio a uma alquimia artesanal: as alianças, unidas por um arame, foram banhadas em soluções diferentes até mergulharem num líquido meio turvo, que começou a fumegar.

- Será que estão se dissolvendo? - brincamos ao ver uma fumacinha subir, olhos fixos no líquido borbulhante. Passados um minuto ou dois, o rapaz pescou as alianças, enxugou-as, passou zelosamente a flanelinha e, após submetê-las a nosso exame, mais reluzentes do que nunca, embrulhou-as com capricho num papel de seda. Prova de que profissionalismo não tem endereço certo, pode estar num metro quadrado de calçada. O colar indiano que eu estava usando teve o mesmo cuidado nas mãos do rapaz. Enquanto aguardávamos, um velho falante, pediu para que eu tirasse uma foto sua, e mais uma, e mais outra, quis ver como ficaram, deu risadas, garatujou o endereço num pedaço de papel. A julgar a facilidade com que pedem para ser fotografados, a lista postal promete ser extensa.  

Depois disso, pegamos um tuc-tuc até a estação de trem, a fim de comprar os bilhetes para Colombo: prédio art-déco, dois andares, cor mostarda, frisos marrons, elefantinhos pretos e o brasão do Sri Lanka, com o leão. Interessante é ver como cada cultura se apropria de maneira totalmente singular de um estilo estrangeiro: o art déco brasileiro, por exemplo, inovou com figuras indígenas e formas geométricas semelhantes a cocares, e também com nomes de edifícios que exaltam o sentimento de brasilidade (Brasil, Uirapuru, Tuiuti, Itahy, Guahy, Amazonas).  Aqui, elefantes e leões. Lá dentro, à altura dos olhos, placas em madeira escura envernizada, com letras pintadas em amarelo, indicam – na ordem: cingalês, tâmil, inglês – o nome, destino e plataforma dos trens; ao lado de cada uma – simulando relógios redondos de parede - ponteiros pretos, ajustados manualmente, indicando os respectivos horários de partida. Um charme só: por mim, os proclamaria Patrimônio da Humanidade e jamais permitiria que fossem substituídos por painéis digitais. De certo, um dia - e não tardará muito -, desaparecerão em nome do progresso: mas ainda é tempo de se sentir um verdadeiro viajante admirando-os na estação de Kandy.

No guichê, depois de muito esforço em entender o “cinglês” [inglês + cingalês], informaram-nos que para aquele dia, os assentos na primeira e segunda classes já estavam lotados, restando alguns na terceira, mas que estes só começariam a ser vendidos a partir das 15h. Procuramos nos certificar de que conseguiríamos comprar para aquele mesmo dia:

- Ok, ok – repetia o funcionário, balançando a cabeça de um lado para o outro, mais parecendo um autômato, bem à maneira daqui. Como ok, em boca de cingalês, pode tanto valer um sim como um não, aplicamos a lição de nossa guia cor de rosa: entregamos para Ganesha e fomos ter com ele no primeiro templo hindu de nossas vidas, enquanto aguardávamos a hora dos ponteiros da railway de Kandy, nosso eterno relógio.



 


segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

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5. Kandy e o dente de Buda


Uma enorme estátua de Buda, multicolorida, recebeu-nos logo à entrada de Kandy; uma outra, branca e monumental dominando toda a paisagem, sinalizou das alturas nossa chegada ao coração do budismo. A cidade, serrana, bem arborizada, rodeada de montanhas, com um enorme lago no centro, é fervilhante, animada e barulhenta: trânsito denso a qualquer hora e em todo lugar, gente pululando no meio da rua, bazares para todos os gostos, estação de trem, mercado municipal gigante, templos hindus e, para completar, o Templo do Dente de Buda, que faz afluir todos os dias à cidade milhares de peregrinos. Fim de tarde, dia longo, cheio. Depois de dar várias voltas no lago à procura de um hotel, todos lotados, acabamos encontrando um, muito charmoso, bem no meio do furdunço: o pátio interno com colunas brancas e sacadas ao redor, plantas e mesinhas no centro, nos fez sentir num oásis de paz e tranquilidade. Certificamo-nos do preço, à vista do quarto: é tanto, certo? Right, right, foi o que ouvimos. Não era lá muito em conta, mas um oásis tem seu preço, e àquela hora era tudo o que queríamos:

- Ok, we stay here... we are going now pick our bags in the car and we come back in few minutes – explicamos ao recepcionista. Fomos até o carro, despedimo-nos do motorista, que voltaria naquele mesmo dia à Colombo, desenfreado com certeza, mas dessa vez, sem nossos sobressaltos. Pegamos as mochilas e ao nosso oásis retornamos, felizes da vida. Mas entre a ida ao carro e a volta ao hotel, em questão de minutos, o preço já não era o mesmo, mas muitas rupias acima. O recepcionista alegava - melhor dizendo, tentava nos fazer engolir - que nos mostrara um quarto double bed, mas que o preço acordado era para single e não double. Uma lógica, digamos, muito particular: o quarto é double mas o preço é por cabeça. Procurei chamá-lo à razão, indo pelo caminho inverso: se o preço era para um, por que nos mostrou um double? Se viu que éramos dois, por que nos deu o preço para um? Obstinado, ele não arredava pé da sua lógica fraudulenta. Chamei o gerente, que ficou no mesmo lenga-lenga:

- Sir, we have shown you a room with double bed, but the price we've given to you was for single – repetia ele num inglês mais para cingalês. 

Eu contestava olho no olho: não fora isso o combinado. E a lenga-lenga recomeçava. Foi quando lembrei de uma das lições básicas de nossa guia cor-de-rosa. Alguma coisa deu errado, tipo reserva de hotel, de trem? Não discutir, explicar bem direitinho, com bastante educação, pedir: “ai moço, por favor, a gente precisa pegar esse trem, senão a gente vai perder o avião”, que aí eles resolvem. Foi o que fiz, pelo menos, tentei:

- Ok, ok, you're are right, I misunderstood, I thought the room you've shown to us with double bed was for two, I'm sorry – disse assumindo o “erro” de ter entendido que o preço de um quarto com cama de casal é para double, não para single. Fica a lição - daqui em diante vou sempre perguntar: preço de double é para um ou para dois? Mas deixemos o “mal-entendido” para lá, argumentei com o gerente, o que importa é que estamos aqui, mochila na mão, cansados, já é tarde, saímos cedo de Colombo, o dia todo na estrada, já dispensamos nosso motorista, adoramos o hotel, queremos ficar, o senhor pode fazer um preço:

- Please, sir, do it for us, please – insisti. Não houve jeito, a lição cor-de-rosa não funcionou: para ficar no oásis, teríamos que compactuar com a fraude. Resolvemos ir embora: se o oásis tem valor, a palavra mais ainda.

De volta ao agito, entregamos para Ganesha, caminhando sem saber aonde ir. Paramos diante de um edifício branco e pomposo, arquitetura vitoriana, de esquina, bem em frente ao lago: Queen's Hotel. Deve ser caro, pensamos, mas não custa perguntar. O porteiro, uniforme branco, abriu-nos a porta de vidro dando para um ambiente amplo e luminoso, piso em mármore claro refletindo lustres e ventiladores de teto, escada e móveis em madeira escura, estofados azul, cortinas amarelas, buquê sobre a mesa, um recamier esquecido no canto: a elegância genuína dos antigos hotéis, que se deixam lentamente empalidecer sem jamais perder a classe. 

- We are full, sorry – disse-nos a recepcionista, sorriso bonito, sari verde e dourado. Agradecemos. Já íamos deixando o balcão, quando me ocorreu perguntar o preço da diária mesmo assim. Ela, respondeu-me algo que não compreendi muito bem. Pedi para repetir. - no problem, e repetiu com o mesmo sorriso bonito: no terceiro andar há um quarto vago, old-fashioned, precisando de alguns reparos; além disso, advertiu-nos, é um pouco distante, tem que subir muitas escadas e é bem no fim do corredor. Talvez Ganesha estivesse intercedendo por nós - pensei. 

- Old-fashioned? - indaguei na esperança de que a expressão não fosse um mero eufemismo. 
- Yes, a little bit old-fashioned – respondeu franzindo um pouco os olhos, sempre sorrindo, dando uma aliviada no old-fashioned - You may see the room, if you desire – acrescentou, dando-nos logo o preço - bem mais em conta do que o inicialmente acordado no oásis deixado para trás. 
- The price is for two? - indaguei escaldado. 
- Of course, sir - respondeu com ar de quem ouve uma brincadeira – it's a double room. Enfim, pensei, a lógica finalmente reencontrada.

Um funcionário com sapatos impecavelmente lustrados, nos guiou pelo labirinto de escadas e corredores muito compridos, sombrios e austeros, numa sucessão de passos quase sem fim. Quarto amplo, pé direito altíssimo, pequena janela, paredes com rachaduras, teto e chão de tábuas corridas: lençóis brancos bem esticados, guarda-roupa com espelho, par de poltronas, escrivaninha, cheiro de madeira encerada. O banheiro, a bem dizer, uma sala de banho: as mesmas tábuas no chão, louça branca, pia e banheira de pé, marcas de ferrugem. O old-fashioned no mais puro estilo inglês. Ficou a lição: perder um oásis pode ser a chave de um quarto feito para a gente. 
 


O famoso Templo do Dente de Buda ficava bem ao lado do Queen's Hotel, bastando atravessar a rua. Pássaros pretos em revoada no céu rosa violáceo, mais alvoroçados do que os tuc-tucs, pousaram no alto das árvores bem acima de nossas cabeças. Marcio levantou os dois braços batendo palma, provocando nova revoada num espetáculo maravilhoso: o bando fez um redemoinho ruidoso e espesso no ar, voltando a pousar nos galhos.

- De novo - pedi, empunhando a câmera, ante o desejo de fixar o instante preciso da palma que provoca o turbilhão no céu: uma, duas tentativas, feita a foto. 


  


Seguimos pela longa esplanada ladeada de jardins bem cuidados que conduz ao templo, um conjunto arquitetônico imponente de fachadas brancas e telhados vermelhos, e cuja relíquia, o suposto dente de Buda, que teria sido levado por um rei indiano ao Sri Lanka no ano trezentos e tanto, está trancada a sete chaves num relicário em ouro ricamente trabalhado. O dente propriamente dito ninguém vê, mas já foi tema de disputas e estórias fabulosas. Umas contam que os portugueses o roubaram e que ao tentar destruí-lo, o dente pulou e virou uma estrela: o que ninguém explica é como uma estrela foi parar dentro do relicário. Outras falam da explosão de uma bomba em frente ao templo: este foi abaixo, mas o dente permaneceu intacto. Fato é que, estando ou não ali, sendo ou não de Buda, o dente move multidões. Deixados os sapatos no house shoes no lado de fora, juntamo-nos ao monte de peregrinos em fila no interior do templo, à espera do Puja, cerimônia religiosa. Portal esculpido em mármore, pinturas coloridas no teto, pilares em pedra trabalhada, bandeirolas nas cores do budismo - azul, amarelo, vermelho, branco e laranja - entalhes em madeira, dourações por toda parte, perfume forte de flor e incenso. No altar, uma escultura enorme de Buda em ouro, outras menores em mármore, dentes de elefante gigantes em marfim. A disposição dos fiéis sobre uma grande mesa, flores de lótus e florzinhas brancas e amarelas em profusão, cuidadosamente arrumadas em pratinhos de plástico, juntamente com velinhas acesas, prontos para a oferenda feita pelos fiéis, junto com algumas rúpias, às mãos do sacerdote. Tambores e instrumentos de sopro tocados por homens de turbante e sarongue branco, faixa laranja à cintura, peito nu e colares, deram início ao Puja. A pequena cortina vermelha com bordados dourados abriu-se, dando a ver o relicário reluzente: a fila vai andando, os fiéis passando, contrição e devotamento, tum-tum-tum mesclado de sons estridentes às alturas. Diante do altar, parar ou fotografar não é permitido. Oferendas entregues, um pequeno unir de mãos, uma reza, uma intenção, um pedido talvez, uma espiadela na relíquia, a benção do sacerdote no meio da fumaça dos incensórios: a cada um, alguns segundos de glória junto ao dente oculto de Buda. Puja terminado, cortina fechada, relicário velado, de volta à rua. 

A longa espera pelo dente abriu-nos o apetite: um restaurante ao lado do templo foi nosso destino. Vazio, algumas mesas apenas, um casal ao fundo, luz fraca, paredes verdes, retratos dependurados. Aguardamos o serviço, nenhum sinal. A fome era tanta que, procurar outro lugar, nem pensar. Lá pelas tantas, apareceu o garçom, um senhor aparentando muita idade, simpático e gentil, desses que andam bem devagarzinho procurando uma poltrona para não cair. Só falava cingalês, e os pratos, todos cingaleses. Pedimos peixe, not spicy please, not spicy - insistimos gesticulando - e one beer. Ele repetiu sorrindo: not spicy, one beer - e lá se foi com seu passinho para a cozinha. Voltou trazendo uma garrafa onde se lia Ginger Beer. Provamos: refrigerante com aroma de gengibre, puro doce. No restaurante do velhinho, cerveja, só no rótulo da garrafa. Ele foi-se de novo lá para dentro, o casal saiu, ficamos nós dois, à luz fraca, Ginger Beer sobre a mesa. Finalmente o velhinho voltou, em idas e vindas sucessivas à cozinha: o peixe era acompanhado de vários pratinhos e molhos cingaleses, trazidos um a um, todos um spicy só. Salvou o arroz, alvo, soltinho, suave, porção enorme. E a imagem do velho garçom, pé ante pé, trazendo a conta feita a lápis, num papel áspero e desbotado: esqueceu-se de anotar o ginger beer. 

A caminho do hotel, céu de estrelas sobre o lago: ficamos imaginando o dente de Buda pulando até chegar lá no alto. O dente na esfera celeste, nós em Kandy, no mais old-fashioned dos mundos.